1 de out de 2009

Por nossos irmãos menores


Carne x Producao em Massa
O que o consumo da carne tem a ver com as linhas de montagem de produção emmassa ?Linhas de montagem é uma idéia que Henry Ford teve. As linhas de montagempermitiram a produção em massa de automóveis. Essas linhas de montagem logoforam copiadas para outras indústrias, tanto de bens como de serviços. Adifusão desse conceito, por sua vez, permitiu a existência da sociedade deconsumo em massa como a conhecemos hoje.O que pouco se comenta é o fato de Henry Ford teve a idéia da linha demontagem ao visitar uma espécie de linha de "desmontagem". Explicandomelhor: segundo consta em sua autobiografia "My Life and Work" (1922),Henry Ford teve essa idéia ao visitar um matadouro em Chicago.As linhas de desmontagem dos matadouros e frigoríficos foram inventadas porGustavus Swift e Philip Armour, de acordo com um livro da Universidade deIllinois, "Work and Community in the Jungle: Chicago's Packinghouse Workers1894-1922". Esses dois sim, foram os verdadeiros pioneiros da produção emmassa.Nesses frigoríficos, os animais eram suspensos de cabeça para baixo por umacorrente que corria presa à uma calha, passando de um funcionário para ooutro. Cada um executando uma tarefa específica no desmembramento da carcaça(atordoamento, corte da cabeça, sangramento, escaldamento, retirada docouro, corte dos membros, remoção das vísceras, lavagem, serragem, etc).Aos olhos de Ford, esse procedimento era tão eficiente que ele reverteu oprocesso de desmontagem no sentido de que em vez de fragmentar um animal,ele criaria um produto com a linha de produção: uma carcaça de automóvelpassaria de funcionário a funcionário, sendo uma ou mais peças integradas emcada etapa, até atingir o produto final.O que talvez ele não tivesse idéia ou não deu muita importância, é que, aomesmo tempo, nesse processo ele estaria desmontando o ser humano também.Uma das coisas básicas que deve acontecer em um frigorífico (linha dedesmontagem) é que o animal deve ser tratado como um objeto inerte einconsciente, cujo valor ético e cujas necessidades são ignoradas. Da mesmaforma, o empregado da linha de montagem é tratado como um objetoinconsciente, cujas necessidades emocionais e criativas são ignoradas.A introdução da linha de montagem teve um efeito rápido e perturbador naspessoas. A padronização do trabalho e a separação do produto final se tornoufundamental na experiência dos empregados. O resultado foi um aumento naalienação dos trabalhadores em relação ao produto que eles construíam. Essaespécie de automação isolou as pessoas do senso de realização através dafragmentação de suas tarefas.Para as pessoas que trabalham em frigoríficos, essa aniquilação do ser édupla: não apenas elas têm que se conformar em executar a mesma operaçãotediosamente horas e horas, como também terão que enxergar o animal como"carne", coisa que a sociedade já faz, mas com a diferença que essesfuncionários estão lá vendo o animal vivo e por inteiro, pelo menos nosestágios iniciais do processo.Esses funcionários têm toda a probabilidade de se alienarem de seus próprioscorpos, à medida que precisam isolar a imagem da carne da imagem do corpo doanimal vivo. Corpo esse que é parecido com o corpo humano em muitosaspectos. Isso pode ser um dos motivos pelos quais a rotatividade de empregoé grande entre os trabalhadores de frigoríficos.Henry Ford desmembrou o significado do trabalho, introduzindo produtividademas tirando a sensação dos empregados de estarem sendo produtivos. Essesempregados, em vez de estarem sendo considerados como seres humanosintegrais, são considerados por tarefa, função e especialidade.E tudo o que se deseja dos funcionários em uma empresa é o lucro que sepossa obter deles, assim como tudo que se deseja de um animal no matadouro éo lucro que se possa obter de sua carne. O que os funcionários pensam,sentem ou sofrem não é levado em conta, da mesma forma que o que os animaissentem e sofrem também não é considerado.E a metáfora acaba ficando evidente quando as pessoas usam certas expressõespara comunicar o cotidiano das relações entre empresa e empregados. O "cortede cabeças" é usado para designar a eliminação de postos de trabalho. Aexpressão "tirar o meu couro" é usada para explicar o trabalho desgastante.Outros preferem dizer "tirar o meu sangue". Muitas pessoas reclamam: "ochefe está no meu pescoço". Recrutadores são chamados de "headhunters". Asbaias ou cubículos dos escritórios imitam as cocheiras das fazendas-fábricasde criação intensiva, onde os seres são privados de contato entre si e com omundo exterior. Até mesmo um jornal do sindicato dos bancários se chama"O Massacre".Upton Sinclair já havia percebido esses paralelos no início do século aoescrever "The Jungle" (A Selva), usando o matadouro para descrever o destinodos trabalhadores. Bertold Brecht também empregou a imagem do abate dosanimais para caracterizar a desumanidade nas grandes empresas em sua peça"Saint Joan of the Stockyards" (Santa Joana dos Currais).Assim, o ciclo se fecha e o matadouro se torna um símbolo da de-humanizaçãodos trabalhadores. E essa de-humanização, por sua vez, é consequência de umsistema derivado de matadouros.E no fundo disso tudo, está o vício pelo qual um ser humano encara todas ascoisas - natureza, seres sensíveis como os animais e seres criativos einteligentes como os humanos - como meros objetos para o seu abusoegocêntrico.

[Baseado em "The Sexual Politics of Meat" de Carol J. Adams]
Extraído do site: www.vegetarianismo.com.br

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